Leio que o governo do Estado vai publicar no Diário Oficial de segunda-feira um decreto, determinando a abertura dos arquivos sob sua custódia, referentes ao último regime autoritário que dominou o país (originado no movimento político-militar-popular de 1964). Será este, segundo a notícia, o último ato da secretária de Justiça e Direitos Humanos, Marília Muricy - uma advogada reconhecidamente dedicada à defesa dos direitos humanos - que no mesmo dia transmite o cargo ao futuro secretário, deputado Nelson Pelegrino, do PT.
A notícia acrescenta que o principal motivo que a fez permanecer no cargo até se esgotar o feriadão foi exatamente a elaboração do decreto, tido como um dos principais objetivos dela no governo. O ato que permitirá a abertura dos arquivos ocorre 19 anos depois que o Estado de Pernambuco tomou iniciativa semelhante, tornando-se pioneiro nesse aspecto.
Se faço referência a essa notícia, também tenho para isso um motivo principal. É que no dia 24 de abril conversei durante uns 20 minutos com o ex-vereador Ignácio Gomes, que se destacou na Bahia como advogado de presos políticos pelo regime autoritário, talvez até tendo salvo a vida de alguns. No dia 25, este jornal publicou artigo, decorrente dessa conversa e no qual foram abordados vários assuntos correlacionados. Mas o trecho que no momento importa vai a seguir, começando por uma pergunta do bravo Ignácio Gomes e seguindo com observações deste repórter:
"Você sabe, Ivan, que uma lei determinou a abertura dos arquivos do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) em todos os Estados do país, que eles estão abertos, mas que na Bahia essa abertura é negada, os arquivos continuam fechados?". Bem, da decisão nacional de abrir esses arquivos eu sabia, o que não sabia é que a Bahia decidiu ser a unidade federada rebelada. E não sei por que, já que o atual governo em nada contribuiu para tais arquivos. Quem sabe, quando o governador voltar de sua atual viagem ao exterior ponha fim nesse desvio. Em nome da lei ou da transparência, esta, também um princípio legal da administração pública, além de promessa solene e reiterada de Jaques Wagner. A administração estadual é a guardiã dos arquivos, pois foi o DOPS órgão da Polícia Civil em cada Estado.
Bem, esse parágrafo que os leitores e especialmente você, Ignácio Gomes, acabaram de ler, melhor dizendo, de reler, já que fora publicado no dia 25, mostra que sua luta pode demorar, às vezes, de produzir resultados, mas não é trava em vão. E desconfio - eu que sou fascinado pelas coisas misteriosas - que essa mistura de inconformidade e cobrança expressa a um amigo que Deus quis repórter, mas notoriamente sem a pretensão que fosse assunto em jornal, teve alguma coisa de mistério, quem sabe daquilo que Jung chamou de sincronicidade e a física quântica começa a demonstrar que é coisa muito mais profunda e geral.
Não há no Universo efeito sem causa. E se a vida de dedicação de Marília Muricy aos direitos humanos estará contribuindo para o decreto que será editado na segunda-feira, certamente a sua, Ignácio Gomes, não deu menor contribuição. Uma contribuição até mais dura, mais difícil, sob certos aspectos até sacrificial.
Importa, como você disse, que as pessoas saibam das coisas que estão nesses arquivos, não para vingança, mas, como você, Ignácio, bem relacionou com os dois minutos de silêncio dos descendentes de Jacob para lembrar o Holocausto, para que não aconteça outra vez.